Reencontro

Não é apropriado falar em reencontro, quando no máximo se encontraram nossos olhares e sequer tenho certeza se ela me reconheceu.

O fato de usarmos máscaras cobrindo a parte de baixo do rosto e o fato de que não tenho mais a vasta quantidade de fios de cabelo no topo de minha consciência me tiram a certeza de ter sido reconhecido.

Quanto a ela, a falta da tinta no cabelo, que usava para puxar o tom para um loiro acinzentado, parece plenamente compensado pela presença dos fios grisalhos.

Sei que era ela e, embora surpreendido, reagi com a mesma expressão de admiração que antes a fizera apaixonar-se por mim… Sim, assim que ficamos suficientemente íntimos, ela me contou que o modo como a fitava nos olhos, pelo tempo exato de fazer-me notado, antes de abaixar o olhar, soava como se eu lhe pedisse desculpas por ter feito um elogio impróprio.

Via-me por respeitoso e elegante, cansada de olhares que se prolongavam inconvenientemente, dos quais procurava desvencilhar-se antes que se fizessem seguir de comentários grosseiros, ainda que pensados como elogios.

A boca entreaberta, no entanto, que completava e tornava indisfarçável o encanto que me causava, ela não pode ver. Assim como não pude eu mais do que adivinhar um sorriso, que tenho certeza aconteceu, ainda que não me tenha reconhecido.

Foi esse sorriso pronto, engatilhado e disparado em todas as direções que me fez vítima pela primeira vez de uma paixão.

A primeira vez que o apontou contra mim, com precisão de atirador de elite, eu já havia sido alvejado tantas vezes pelos ricochetes das rajadas que ela disparava aleatoriamente que, sozinho, empalideceria qualquer estatística de vítimas inocentes.

De fato, vê-la sorrir para outra pessoa qualquer era suficiente para amá-la, mas quando a vi caminhando na direção em que me encontrava parado, penso que temi por minha vida.

A distância, uns cinco metros, foi percorrida num tempo superior aos menos de dois segundos que durava meu elogio mudo, e não fazia sentido desviar o olhar antes de cumprimentá-la.

Percebendo talvez meu desespero, caprichou na pontaria, no sorriso e no andar. Fez fogo assim que travou a mira e continuou, atirando covardemente, deliciando-se com meus estertores, até parar e dar o tiro de misericórdia, no meio da minha cara: – Quer uma carona?

Mas não foi isso que me veio à lembrança ao revê-la. Nos dois segundos que nos entreolhamos, uma eternidade me inundou. Não a eternidade dos poucos anos que passamos juntos, tampouco a eternidade das décadas que se seguiram e fizeram dobrar o século.

A eternidade de uma dúvida.

continua….

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