Caixa de cassetes

ENTRADA DE UM SUPERMERCADO- DIA

Homem de meia-idade, meio século, para ser mais preciso, usando óculos de proteção e abafadores de ruído profissionais – que manterão o filme mudo neste início. Máscara anticovid-19 cobrindo a parte inferior do rosto; entra no supermercado.

Outras pessoas estão todas usando máscaras comuns; ninguém usa, no entanto, óculos ou proteção para os ouvidos, apenas alguns jovens, pelo contrário, usam fones de ouvido.

O homem caminha, um pouco distraído, mas direto para a parte de trás, dos frigoríficos, onde pega alguns pacotes de bacon e depois em direção a banca onde estão as caixas de ovos, sem olhar para mais nada no caminho. Volta ainda para pegar mais bacon e depois se dirige ao caixa, onde uma mulher está pagando a conta.

Ele fica olhando para ela o tempo todo enquanto ela mexe na bolsa procurando trocados. Ela levanta a cabeça e olha para ele com um sorriso que, velado pela máscara, assoma aos olhos, como se preparando para pedir desculpas por demorar tanto tempo.

Ao invés disso, cai na gargalhada ao deparar-se com a figura estranha, mesmo para tempos de pandemia.

Bem, você está seguro, hein?- comenta simpática, como se pedisse desculpas pela gargalhada.
Ele se apressa a tirar a proteção dos olhos e ouvidos, mas ela já está saindo, pois alguém buzina no meio-fio.


(Sons de supermercado aumentam até atingir o nível normal)
Nesse momento, com a tralha nas mãos, a máscara ainda no rosto, ele se vira, pega um carrinho de compras onde deposita o equipamento e começa a fazer compras.


INTERIOR DE UM APARTAMENTO

Corta para ele, mãos ocupadas com muitos pacotes, entrando em casa. Há uma mulher lá dentro, mais jovem e bonita, manuseando alguns discos.

Música animada dos anos 70 tocando alto.

Ela se apressa para ajudá-lo com as compras: Uau? O que deu em você, quer dizer, isso é ótimo!

Ele olha por cima do ombro dela para a parede coberta com seu aparelho de som de ponta, percebe que está ligado.

Ela vira a cabeça nessa direção: Desculpe, encontrei-os espalhados … (a câmera percorre uma pilha desfeita de uns trinta elepês no chão, sobe, encontra e percorre a parede inteira cheia de discos)

Não há com que se preocupar, é que você nunca mostrou interesse. – no entanto, começa a recolhê-los e colocar na estante.

Deixa que eu arrumo, quero dizer, vou colocá-los de volta no lugar certo depois, posso fazer isso.

Você tem certeza? Eu deixei os anteriores saltados, para facilitar, mas não é um problema, eu realmente aprecio você mostrando interesse pelas minhas coisas antigas.

Prefiro o Spotify… Mas já que estamos trancados aqui dentro o dia todo … pode ser divertido.

Sons de cliques informam que era a última música daquele lado. Enquanto ele vira o disco, ela pergunta, subitamente:

Quem é Fernanda?

Quem?

Chiados antes que a música comece novamente, suave e romântica agora, anos 80.

Fernanda, quem é ela? “Love you whenever we’re together, love you when we’re apart ”.

É uma música dos Beatles …

Então, ela era um deles, o quinto Beatle?

Eu odeio pessoas que escrevem nas capas.

Quer dizer que você a odeia? Tem certeza disso?

Não, eu não… Não é isso. É passado, o que te importa? Tem…

“My heart will lie beside you, and my wandering body grieves”?

Neil…

“Nothing compares 2u” ah, aqui está, quem? Fernanda! Fernanda! – para e o encara, volta aos discos espalhados, demorando-se em silêncio em cada capa.  Antes de chegar a metade, sai e bate a porta.

Ele agora está procurando em uma caixa de fitas cassete, que fazem aquele ruído seco de plástico duro.
Encontra a fita K-7 que estava procurando, com uma foto cortada para servir de capa, que ele tira e olha de perto, por cima dos óculos: ele, mais jovem, ao lado de uma mulher, dividindo um cachecol que lhes cobre a parte inferior dos rostos.

FIM.

Final alternativo:
Depois de rolar a fita na mão por um tempo, ele tira a fita da caixa e a insere no toca-fitas duplo.
Porém, ao invés de pressionar o botão de reprodução, ele pressiona o botão de ejeção, revira a caixa das fitas para encontrar um toca-fitas e gravador portátil, coloca a fita, pressiona a reprodução, senta-se, relaxa e aguarda os sons do passado voltarem à vida. Para seu desespero, porém, o único som que sai é o barulho estridente da fita sendo mastigada.

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