Arquivo da categoria: Opinião

Ética de pandemias: ser pago para não trabalhar

Muitas das noções associadas ao comportamento ético ou virtuoso tem origem na forma como os indivíduos encaram e desempenham as atividades necessárias à sobrevivência.

Isto é fácil de entender se compreendermos que a sobrevivência do indivíduo é obtida pari passu com a sobrevivência do grupo de que faz parte.

É considerado virtuoso aquele cujas atitudes contribuem para o bem-estar coletivo, em última análise, aquele capaz de sacrificar parte de seus esforços, e do resultado obtido a partir destes esforços, pela sobrevivência de outros da espécie.

Tais atitudes são rotuladas de altruístas, ao passo que são consideradas egoístas aquelas em que o indivíduo ignora a necessidade de seus semelhantes, tratando apenas das suas próprias ou, no máximo, das do seu grupo familiar restrito.

Esse padrão ocorre em todas as espécies vivas, como parte central do mecanismo da evolução. O sucesso evolutivo reflete, entre outros fatores, a harmonia conseguida entre as atitudes que visam a sobrevivência do indivíduo e as que favorecem a sobrevivência do grupo.

Nos seres humanos, isso era mais visível quando mais primitivos, quando a maior parte das atividades restringia-se à luta para manter-se vivo e sequer havia o conceito de trabalho.

Os seres humanos primitivos obtinham o necessário à sobrevivência diretamente do mundo natural, numa imagem que, não fora a escassez, em muito assemelhar-se-ia à descrição do Jardim do Éden da tradição bíblica.

Neste contexto, abrir mão de parte dos recursos obtidos, compartilhando-os com os semelhantes, bem como participar ativa e comprometidamente das atividades coletivas levadas a cabo para obtê-los, são os comportamentos sociais a partir dos quais se forjaram conceitos como moral, ética e virtude.

Em algum momento, surge o conceito de trabalho, aplicado a uma parcela das atividades humanas. Por motivo de concisão, não divagarei sobre isso neste momento.*

Apenas vislumbremos a evolução da espécie humana como a diversificação de suas atividades. Embora cada vez menos imediatamente identificáveis com a busca pura e simples de recursos para a sobrevivência, a maioria das atividades humanas visa sim, em última instância, garantí-la.

E o fato é que na atual conjuntura, várias áreas da atividade humana estão sofrendo restrições impostas no interesse do bem da coletividade.

Expressas em leis, emanadas do poder público em plena vigência do Estado democrático de direito, estas restrições atingem liberdades individuais, entre as quais o direito ao livre exercício profissional e impactam desigualmente as atividades, com base na sua essencialidade e nos níveis de risco potencial de contaminação delas decorrentes.

Parece justo que a coletividade, que se busca proteger com tais medidas, se organize para garantir alguma renda e, consequentemente, a sobrevivência das pessoas cujas atividades estão sendo proibidas.

Para encerrar por ora, importante salientar que nem toda medida deve ser de iniciativa dos entes governamentais e que, mesmo quando assim seja, não se trata de benesse distribuída por critério da autoridade, mas sim de expressão da solidariedade social, insculpida no ordenamento jurídico, que não apenas autoriza, mas determina a atuação estatal.


  • Alguma reflexão acerca do conceito de trabalho me ocorreu e pretendo desenvolvê-la: tipos de trabalho, essencialidade, valoração e valorização. Possivelmente trará cores para o assunto deste post.

X é culpado pela 100 mil mortes pelo coronavírus no Brasil?

A resposta para essa pergunta é NÃO, para qualquer valor de X.

Nem o próprio coronavírus pode ser acusado com toda certeza de ter causado todas as mortes a ele atribuídas, que dirá uma pessoa qualquer.

Pergunta de má-fé, visa apenas obter a resposta pronta de quem é contra ou a favor X, não acrescenta informação nenhuma apenas exacerba a polarização em torno de X.

Trata-se de pesquisa do Datafolha, veiculada há pouco pela Folha de SPaulo, mas nem vale a pena colocar o link aqui.

O sarrafo e a natureza humana

Em algum momento no futuro, ao abordar o tema controverso da natureza humana, vou apoiar-me na ideia de que a diferença entre a espécie humana e as demais é a capacidade de transformar os recursos que encontra na natureza.

Uma que outra espécie desenvolveram habilidades neste sentido. Pássaros constroem ninhos com uma diversidade de materiais, abelhas fazem bonito, produzem a cera com que constroem a colmeia. Castores constrem diques com troncos de árvore que serram com os dentes para essa finalidade, pinguins constroem iglus com gelo.

No entanto, é bastante limitada a capacidade de qualquer espécie, exceto a humana. Geralmente limita-se a um só talento, restrito a melhorar sua alimentação ou a abrigar-se, mas fundamental ao seu sucesso evolutivo, ou seja, à sua sobrevivência enquanto espécie.

Os ancestrais da raça humana, por sua vez, ao criarem os primeiros artefatos, desencadearam um processo em que a evolução tecnológica retroalimentou a evolução biológica e foi por ela retroalimentada, acelerando sobremaneira o conjunto.

Pois bem, alguns dos primeiros artefatos foram, com certeza, pedaços de galhos, de troncos ou raízes de árvores, materiais lenhosos, gravetos, pedaços de pau… Podemos dizer sem medo que o sarrafo esteve conosco durante toda a evolução da espécie, tendo sido essencial para chegarmos onde estamos.

Em homenagem pois, e em reconhecimento à sua importância e à sua onipresença na história da humanidade, à sua confiabilidade e insuperável poder transformador, mesmo em era de tecnologias digitais sofisticadas, vou lançar mão dessa peça de apelo nostálgico neste blog.

Em breve, na seção BAIXANDO O SARRAFO, vou render-me à tentação de opinar contra as impropriedades mais absurdas que tomar conhecimento.

Baixarei o sarrafo à esquerda e à direita, indistintamente, procurando ater-me a casos sintomáticos, de comportamentos recorrentes, de comprovada má-fé ou prática política deplorável.

Pinguins constroem iglus com blocos de gelo? Você não deixou passar batido essa, né??