Arquivo da categoria: Pandemídia

O termo refere-se a elevada quantidade de informação produzida e disseminada sobre a pandemia de Covid19. Vários fatores contribuem para que essas informações ressintam-se de uniformidade, comprovação de veracidade, objetividade e tempestividade.

X é culpado pela 100 mil mortes pelo coronavírus no Brasil?

A resposta para essa pergunta é NÃO, para qualquer valor de X.

Nem o próprio coronavírus pode ser acusado com toda certeza de ter causado todas as mortes a ele atribuídas, que dirá uma pessoa qualquer.

Pergunta de má-fé, visa apenas obter a resposta pronta de quem é contra ou a favor X, não acrescenta informação nenhuma apenas exacerba a polarização em torno de X.

Trata-se de pesquisa do Datafolha, veiculada há pouco pela Folha de SPaulo, mas nem vale a pena colocar o link aqui.

Coronavírus: de pandemia a pandemônio

É como dizem, existem três tipos de mentiras: a comum, a escandalosa e a estatística…

Eu mesmo cheguei a dizer que, tendo em vista que não há dados médicos tempestivos, principalmente porque falta testagem, deveríamos nos basear em dados estatísticos para determinar as políticas de saúde pública.

Mas a forma como a estatística tem sido utilizada dá margens a todo tipo de manipulação de dados. Não de seus valores, que se presumem íntegros, mas da sua escolha.

Em https://transparencia.registrocivil.org.br/registros , obtive os seguintes dados, referentes aos totais de óbitos registrados de janeiro a julho:
2017=586.753
2018=691.189
2019=730.991
2020=796.427

O aumento entre 2018 e 2017 foi de 17,8%.
Entre 2019 e 2018 apenas 5,75%.
Entre 2020 e 2019, 8,95%.
Números bastante irregulares, não? O que isso significa? Significa que qualquer análise que venha ser feita tem que se aprofundar um pouco mais.

O senso comum faria supor que o aumento anual do número de óbitos devesse acompanhar o aumento vegetativo da população. No entanto inúmeras variáveis interferem nestes números, por exemplo:

  • melhoria da qualidade e expectativa média de vida decorrente de políticas públicas de saneamento básico, distribuição de renda, segurança alimentar;
  • diminuição de mortes violentas em decorrência do êxito das políticas de segurança pública;
  • diminuição de mortes em decorrência de doenças endêmicas em decorrência do êxito de programas de saúde pública
  • diminuição de mortes entre 0 e 1 ano de vida decorrentes doença de programas de saúde natal e neonatal
  • aumento de mortes por desastres, naturais ou não, ou qualquer outra causa perceptível

Parece que, cansados de manipular a população com informação baseada em dados médicos imprecisos, encontraram uma fonte de dados precisos para usar em campanhas de desinformação: os dados estatísticos.

Lembrando que os dados médicos, tanto quanto os estatísticos, prestam-se a manipulação de qualquer viés, seja para justificar a liberação das atividades, seja para defender o confinamento.

O que temos de fato é que o número de óbitos entre janeiro e agosto cresceu 8,95% entre 2019/2020 em que pese ter havido uma diminuição das mortes por causas violentas no período.

Enquanto não levamos a sério a questão, enquanto não buscamos utilizar todas as informações disponíveis de uma forma isenta para encontrar soluções plausíveis e ponderadas, enquanto não desenvolvemos uma estratégia inteligente para lidar com a pandemia, reforço a sugestão abaixo, recuperada do WhatsApp…

24/04/2020 14:57 – Mais uma vez, para a surpresa de muitos e o desespero de todos, o inevitável aconteceu e a pandemia está prestes a transformar-se em um pandemônio.

A ciência da medicina já não é capaz de fornecer os dados confiáveis e tempestivos necessários para a tomada de decisões relacionadas às políticas públicas de combate à disseminação do vírus e ao tratamento dos doentes.

Mortes acontecidas há mais de uma semana somente agora são contabilizados como causadas pelo coronavírus. Essa defasagem é fatal dada a taxa exponencial de crescimento do número de infectados. As decisões tomadas com base nos números existentes há uma semana não farão frente as medidas que realmente eram necessárias.

Por isso, por não termos dados confiáveis, temos que usar a previsão mais pessimista. Afrouxar o isolamento, confiando em dados irreais, irá aumentar a quantidade de infectados e nos levar ao nosso destino anunciado, o colapso do sistema de saúde para enfrentar a pandemia.

Os que faziam troça, comparando a quantidade de mortos devido à covideodó 19 com vítimas de outras mazelas, com que aprendemos a conviver, como balas perdidas e dengue, entenderão finalmente o significado da palavra "exponencial". Sim, porque a vítima de dengue não transmite a doença para as pessoas no seu leito de morte ou no seu velório, muito menos a vítima de bala perdida tem a chance de disparar a esmo em seus estertores nos becos e vielas nas comunidades.

O que fazer então? Se a morte é a única certeza que temos nesta vida, vamos pautar nossas ações com base neste dado inexorável. Adotar como premissa que, descontado o crescimento vegetativo da população, o aumento do número de mortes em comparação com com os anos anteriores deve-se todo ao coronavírus.

Coronavírus: pandemia ou pandemônio?

31/03/2020 07:42 – Coronavirus: pandemia ou pandemônio?

Para lidar-se com a crise da pandemia, é essencial cuidar da qualidade da informação sobre a natureza, extensão e gravidade do problema; os agentes envolvidos, sua participação e suas motivações; a discussão, a tomada de decisão e suas implicações e desdobramentos: tudo enfim que compõe um cenário que se modifica mais rapidamente que em tempos normais.

Já desde o momento inicial, o governo Central deveria ter assumido o protagonismo do papel de divulgação de informação, provendo-a de forma clara, tecnicamente embasada, ponderada, inequívoca, uniforme e, principalmente, politicamente isenta.

Para isso, no entanto, é preciso dialogar, ouvir e levar em consideração pontos de vistas divergentes durante todo o processo. Se não há espaço para troca civilizada e democrática de ideias, o tema logo se polariza e se politiza, o que só é bom para quem quer se aproveitar do momento para executar manobras políticas.

A conhecida falta de interesse do Presidente em abrir canais de comunicação com setores além dos que garantiram a sua eleição e em melhorar seu relacionamento com a imprensa tem cobrado seu preço, inflacionado agora pela crise.

Não estou dizendo que concordo ou discordo do que ele fala, apenas que a forma como trata a informação e a comunicação, tanto quanto a falta, atraso e descoordenação na adoção de medidas (que abre espaço e até mesmo exige, a tomada de iniciativas por outras esferas da administração pública e até mesmo da sociedade civil, o que vem acontecendo de forma voluntariosa, solidária, mas improvisada, desordenada e, em alguns momentos, temerária) está transformando uma pandemia que era para ser só uma gripinha num pandemônio para a população e numa ameaça à estabilidade política do seu governo.

Texto recuperado do WhatsApp, datado de 31/03/2020. Editado em 10/08/2020.

O impacto de argumentos falaciosos

Infelizmente, há muito conteúdo nitidamente falacioso, alguns notadamente de má-fé, em todos os canais de produção e distribuição de informação. (Esta afirmação não é conclusão de nenhum argumento, nem a medição objetiva e comprovada dos fatos, apenas minha percepção, preocupação e motivação para continuar escrevendo)

O impacto de uma informação falsa, tendenciosa, imprecisa, é difícil ser medido, mais difícil ainda ser reparado em toda a extensão de suas consequências.

Creio que estamos presenciando um efeito de espiral viciosa em que a proliferação de conteúdo falacioso provoca um aumento polarização indevida de temas e é retroalimentada por este aumento do radicalismo e da intolerância, com consequências de proporções desastrosas para o ambiente político e para a harmonia da sociedade brasileira.

Tudo isso porque, embora esteja mais fácil produzir, disseminar, pesquisar, verificar conteúdo, dentro do ambiente digital, a maioria da população optou por apenas disseminar, compartilhar aquilo que lhe parece verdadeiro, acreditando com isso estar a exercer seu direito de expressar o que pensa.

A mídia digital favorece a participação ativa da população, mais do que a mídia tradicional, mas a qualidade desta participação tem deixado a desejar.

Poucos produzem conteúdo original. E entre estes, estão os que produzem conteúdo tendencioso, falso, manipulador, pois já notaram o poder de infiltração e a vulnerabilidade dos usuários.

Normalmente, o conteúdo nos é empurrado de alguma forma, ainda que pareça que foi escolhido por nós. Seja abusando das ferramentas de disseminação de conteúdo, seja pela atuação de algoritmos que direcionam esta escolha, afunilando nossas opções ao invés de escancará-las.

Poucos questionam o conteúdo que se lhes apresenta. Poucos vão atrás de outras fontes.

Muitos, no afã de manifestar opinião sobre toda variedade de assuntos não se tem feito acompanhar de igual afã de aprofundar-se no seu conhecimento, e o que vemos são milhões de pessoas a concordar e repassar conteúdos, sem análise crítica alguma.

Se, em condições normais um argumento falacioso não resistiria ao confronto com a veracidade dos fatos ou a validade das ideias que o infirmam, atualmente, o fato de não termos um ambiente digital propício ao debate de ideias, faz com que seu impacto multiplique-se na velocidade com que é compartilhado.

Por outro lado, embora todos devam se responsabilizar pelas consequências das ideias em que baseiam suas ações e da forma que as disseminam, de modo a reparar eventuais danos causados a outras pessoas, a velocidade de disseminação dos conteúdos não se faz acompanhar da mesma velocidade e efetividade em repararem-se-lhe os efeitos negativos.

Desta forma, numa espiral viciosa, vê-se substituir o debate aberto, democrático, republicano por retaliações de igual tom e calibre, nivelando por baixo a qualidade da informação, num diálogo de surdos-mudos.

EVITEM DISSEMINAR O LOROTAVÍRUS

COMBATAM A PANDEMÍDIA

O ambiente dos meios de comunicação digital

O século passado viu surgir o conceito de comunicação de massa. Acompanhando o ritmo acelerado da evolução tecnológica, a comunicação na sociedade humana mudou drasticamente.

Além dos novos meios, como o rádio, a televisão, o cinema e a música gravada em suportes físicos, outros meios tradicionais, como jornais, livros e revistas, passaram a ter produção em larga escala e distribuição em escala global.

A comunicação de massa caracteriza-se pela assimetria entre o emissor e o receptor da mensagem. O canal da comunicação não está disponível na mesma medida e condições para ambos. Não se estabelece um diálogo, propriamente dito. Os grandes conglomerados são vistos como representantes ou propriedade mesmo de classes dominantes, que produzem e disseminam informações e conteúdos alinhados a seus interesses.

Mais para o fim do século XX estava-se pavimentado o caminho para que a comunicação pudesse se beneficiar dos avanços da informática em todos seus aspectos e todos seus efeitos: variedade de formatos; ferramentas mais simples; plataformas de distribuição cada vez mais acessíveis.

Contudo, este novo ambiente em transformação, em que se dá a comunicação digital, em que pese poder democratizar a produção de conteúdos, tampouco restabeleceu alguma simetria, reciprocidade ou condição para diálogo efetivo e produtivo.

Devem ser rediscutidas com profundidade e responsabilidade, por todos os setores da sociedade, as muitas questões relacionadas ao fenômeno da comunicação, aplicadas a esse novo ambiente, tais quais:

  • princípios da liberdade de pensamento e liberdade de expressão
  • qualidade do conteúdo
  • responsabilidade pelo conteúdo veiculado
  • marco legal regulatório
  • segurança da informação

Por enquanto, o que vemos é um ambiente propício à proliferação de conteúdo de procedência duvidosa, uma profusão de fontes, inclusive assim entendidas as fontes secundárias, que não produzem, mas reproduzem, repassam conteúdo sem maiores preocupações.

As dimensões do argumento falacioso

Ao argumentarmos, sobre qualquer assunto, o que fazemos é buscar explicar com base em que encadeamento de fatos e/ou ideias chegamos a uma determinada conclusão.

Podemos argumentar a partir somente de ideias, a partir somente de fatos ou a partir de fatos e ideias, mas a conclusão será sempre uma ideia, nunca um fato.

Aos fatos e ideias trazidos para fundamentar uma argumentação chamamos premissas.

A conclusão de um argumento pode ser usada como premissa em uma argumentação subsequente.

Para que um argumento seja válido, ou seja, para que sua conclusão seja verdadeira, é necessário que todos os fatos e ideias em seu interior sejam verdadeiros.

Se alguma ideia utilizada como premissa na argumentação for a conclusão de uma argumentação anterior, terá seu valor de verdade condicionado à validade desta.

Mas, apesar de necessário, não é suficiente que os fatos e ideias usados como premissas sejam verdadeiros para que a conclusão do argumento seja verdadeira.

É necessário também que o encadeamento, as relações entre essas premissas respeitem os critérios da lógica formal, traduzidos no uso da linguagem verbal de forma clara e inequívoca.

Falácias são aqueles argumentos cuja conclusão não se sustenta logicamente em suas premissas.

Não é necessário supor que por trás da falácia exista uma intenção de falsear a verdade. A deficiência pode dever-se ao desconhecimento do real valor de verdade dos fatos e ideias empregados na argumentação, ou em erro nta sua lógica interna, sem que haja má-fé.

A ma-fé evidencia-se quando, ao ser confrontado com possível falha de sua argumentação, o autor:

  • nega-se de pronto a reavaliá-la
  • apressa-se a apresentar novos argumentos, ao invés de defender o argumento atacado
  • utiliza-se, nestes novos argumentos, de fatos de difícil comprovação
  • abandona os fatos ou passa a privilegiar o uso de ideias nas suas premissas sem, no entanto, demonstrar sua validade
  • apela para argumentos cada vez mais claramente falaciosos: apelo a força, a piedade, a consequências, a preconceitos, a emoção; fuga de assunto e ataques pessoais.

LEIAM O GUIA DAS FALÁCIAS

Guia das Falácias

Demonstrar a fragilidade de um argumento é bem mais simples do que parece. Sobretudo, é muito mais fácil e proveitoso do que investigar e tentar provar as intenções da pessoa ou grupo de pessoas que o elabora, sustenta, defende ou dissemina.

O que torna um argumento frágil? O principal mal de que padece uma argumentação é a presença de falácias em seu interior. Essas falácias assumem diversas formas e se inserem nos argumentos como um vírus, contra o qual a maior parte da população não tem imunidade.

Ao contrário da pandemia, para combater a pandemídia devemos não usar máscaras e não podemos simplesmente lavar nossas mãos.

O Guia das Falácias, de Stephen Downes, com tradução e adaptação de Júlio Sameiro pode não ser a panaceia, mas não tem contra-indicações nem efeito colaterais nocivos. Pode ser usado sem parcimônia para detectar e evitar a propagação destas pragas!

https://criticanarede.com/falacias.html

Breaking news


You can’t figure what I wish
Pay no heed to what I think
Hardly hear me when I speak
Make no sense from what you hear


“Nothing happens through your days?
Anything you’d care to mention?
In this whole world going crazy
Something must draw your attention”


There are many things indeed
But I’m lost in my distractions
What I lack, what I’m in need
Is a pause for my reflections


All I expect and ask of you
Please, believe in dreams come true
I would offer you my view
Just before the break of news

Reflexão inicial

27/03/2020 16:51 – Luis Emilio: Corrigido:

É tempo de refletir e a minha primeira reflexão é: qual é o tempo que não seja de refletir?

Como Nação, não temos o direito de agir irrefletidamente, mas é o que temos feito. E isso nos têm trazido repetidas vezes a situações em que nos vemos frente a escolhas difíceis.

Devemos ter em mente que as opções não surgem do nada; cada escolha determina nossas opções futuras e cada opção que temos no presente é determinada por nossas escolhas passadas.

Cada vez que nos deparamos com escolhas difíceis, em que as opções são igualmente dolorosas, podemos admitir que isso se deve a decisões erradas anteriores ou podemos nos considerar vítimas das circunstâncias, de fatores externos, imprevisíveis.

A segunda opção vem junto com a atitude de continuar agindo irrefletidamente.

A primeira comporta a armadilha de, ao invés de analisar profunda e imparcialmente o encadeamento dos fatos pretéritos, tão somente buscar culpados no passado imediato.

O fato é que somos um país extremamente vulnerável. Qualquer espirro do outro lado do mundo põe em cheque a capacidade do nosso sistema de saúde; qualquer gripinha ou resfriadinho revela nossa falta de educação, solidariedade humana, espírito coletivo e coesão social; qualquer marolinha no preço internacional das commodities demonstra a fraqueza de nossa economia.

Chegamos a este momento em que temos que escolher entre reduzir a atividade econômica ou colocar em risco a vida de parte da população, principalmente daqueles que hoje já não fazem parte da população economicamente ativa.

Para os que defendem a segunda opção, a escolha é mais fácil: de um lado, preservar a atividade econômica; do outro, preservar a vida da parte da população que não colabora tanto mais para essa atividade econômica. A conta é ainda mais fácil. Trata-se de medir o PIB. As vidas perdidas também entram na conta, mas com sinal positivo, aliviando os gastos com uma parcela da população que já não produz tanto.

Entretanto, ainda que provem na ponta do lápis que a melhor opção para viabilizar o país economicamente, para reduzir a crise e acelerar a retomada após ela, afirmo que a decisão ética, neste caso, não pode ser pautada numa visão de futuro, e sim num ajuste de contas com o passado.

Não podemos mudar o passado, mas não devemos nos esquivar de pagar pelos erros que cometemos. E o preço não pode ser pago com vidas humanas, ainda que sejam vidas já quase totalmente vividas. Há de ser pago com o sacrifício futuro dos que sobrevivermos e a força moral que precisaremos para tanto, e que está a se forjar hoje, estará seriamente comprometida se tivermos que carregar a culpa de aceitar o risco de abreviar um dia que seja da vida de nossos pais e avós.

………

Publico aqui este que foi um dos primeiros textos que escrevi para expor minha preocupação com o rumo que a crise da pandemia causada pelo coronavírus apontava.
De certa forma, estou preso nesta reflexão desde então e procurarei organizar ideias, buscando refúgio na lógica e no bom senso (que infelizmente, é constantemente superado pelo senso comum).
É a única forma que enxergo de fazer frente à descrença, à impotência, à desconfiança, às incertezas e às animosidades que campeiam apocalipticamente entre a pandemia e a pandemídia.