Coronavírus: de pandemia a pandemônio

É como dizem, existem três tipos de mentiras: a comum, a escandalosa e a estatística…

Eu mesmo cheguei a dizer que, tendo em vista que não há dados médicos tempestivos, principalmente porque falta testagem, deveríamos nos basear em dados estatísticos para determinar as políticas de saúde pública.

Mas a forma como a estatística tem sido utilizada dá margens a todo tipo de manipulação de dados. Não de seus valores, que se presumem íntegros, mas da sua escolha.

Em https://transparencia.registrocivil.org.br/registros , obtive os seguintes dados, referentes aos totais de óbitos registrados de janeiro a julho:
2017=586.753
2018=691.189
2019=730.991
2020=796.427

O aumento entre 2018 e 2017 foi de 17,8%.
Entre 2019 e 2018 apenas 5,75%.
Entre 2020 e 2019, 8,95%.
Números bastante irregulares, não? O que isso significa? Significa que qualquer análise que venha ser feita tem que se aprofundar um pouco mais.

O senso comum faria supor que o aumento anual do número de óbitos devesse acompanhar o aumento vegetativo da população. No entanto inúmeras variáveis interferem nestes números, por exemplo:

  • melhoria da qualidade e expectativa média de vida decorrente de políticas públicas de saneamento básico, distribuição de renda, segurança alimentar;
  • diminuição de mortes violentas em decorrência do êxito das políticas de segurança pública;
  • diminuição de mortes em decorrência de doenças endêmicas em decorrência do êxito de programas de saúde pública
  • diminuição de mortes entre 0 e 1 ano de vida decorrentes doença de programas de saúde natal e neonatal
  • aumento de mortes por desastres, naturais ou não, ou qualquer outra causa perceptível

Parece que, cansados de manipular a população com informação baseada em dados médicos imprecisos, encontraram uma fonte de dados precisos para usar em campanhas de desinformação: os dados estatísticos.

Lembrando que os dados médicos, tanto quanto os estatísticos, prestam-se a manipulação de qualquer viés, seja para justificar a liberação das atividades, seja para defender o confinamento.

O que temos de fato é que o número de óbitos entre janeiro e agosto cresceu 8,95% entre 2019/2020 em que pese ter havido uma diminuição das mortes por causas violentas no período.

Enquanto não levamos a sério a questão, enquanto não buscamos utilizar todas as informações disponíveis de uma forma isenta para encontrar soluções plausíveis e ponderadas, enquanto não desenvolvemos uma estratégia inteligente para lidar com a pandemia, reforço a sugestão abaixo, recuperada do WhatsApp…

24/04/2020 14:57 – Mais uma vez, para a surpresa de muitos e o desespero de todos, o inevitável aconteceu e a pandemia está prestes a transformar-se em um pandemônio.

A ciência da medicina já não é capaz de fornecer os dados confiáveis e tempestivos necessários para a tomada de decisões relacionadas às políticas públicas de combate à disseminação do vírus e ao tratamento dos doentes.

Mortes acontecidas há mais de uma semana somente agora são contabilizados como causadas pelo coronavírus. Essa defasagem é fatal dada a taxa exponencial de crescimento do número de infectados. As decisões tomadas com base nos números existentes há uma semana não farão frente as medidas que realmente eram necessárias.

Por isso, por não termos dados confiáveis, temos que usar a previsão mais pessimista. Afrouxar o isolamento, confiando em dados irreais, irá aumentar a quantidade de infectados e nos levar ao nosso destino anunciado, o colapso do sistema de saúde para enfrentar a pandemia.

Os que faziam troça, comparando a quantidade de mortos devido à covideodó 19 com vítimas de outras mazelas, com que aprendemos a conviver, como balas perdidas e dengue, entenderão finalmente o significado da palavra "exponencial". Sim, porque a vítima de dengue não transmite a doença para as pessoas no seu leito de morte ou no seu velório, muito menos a vítima de bala perdida tem a chance de disparar a esmo em seus estertores nos becos e vielas nas comunidades.

O que fazer então? Se a morte é a única certeza que temos nesta vida, vamos pautar nossas ações com base neste dado inexorável. Adotar como premissa que, descontado o crescimento vegetativo da população, o aumento do número de mortes em comparação com com os anos anteriores deve-se todo ao coronavírus.

Coronavírus: pandemia ou pandemônio?

31/03/2020 07:42 – Coronavirus: pandemia ou pandemônio?

Para lidar-se com a crise da pandemia, é essencial cuidar da qualidade da informação sobre a natureza, extensão e gravidade do problema; os agentes envolvidos, sua participação e suas motivações; a discussão, a tomada de decisão e suas implicações e desdobramentos: tudo enfim que compõe um cenário que se modifica mais rapidamente que em tempos normais.

Já desde o momento inicial, o governo Central deveria ter assumido o protagonismo do papel de divulgação de informação, provendo-a de forma clara, tecnicamente embasada, ponderada, inequívoca, uniforme e, principalmente, politicamente isenta.

Para isso, no entanto, é preciso dialogar, ouvir e levar em consideração pontos de vistas divergentes durante todo o processo. Se não há espaço para troca civilizada e democrática de ideias, o tema logo se polariza e se politiza, o que só é bom para quem quer se aproveitar do momento para executar manobras políticas.

A conhecida falta de interesse do Presidente em abrir canais de comunicação com setores além dos que garantiram a sua eleição e em melhorar seu relacionamento com a imprensa tem cobrado seu preço, inflacionado agora pela crise.

Não estou dizendo que concordo ou discordo do que ele fala, apenas que a forma como trata a informação e a comunicação, tanto quanto a falta, atraso e descoordenação na adoção de medidas (que abre espaço e até mesmo exige, a tomada de iniciativas por outras esferas da administração pública e até mesmo da sociedade civil, o que vem acontecendo de forma voluntariosa, solidária, mas improvisada, desordenada e, em alguns momentos, temerária) está transformando uma pandemia que era para ser só uma gripinha num pandemônio para a população e numa ameaça à estabilidade política do seu governo.

Texto recuperado do WhatsApp, datado de 31/03/2020. Editado em 10/08/2020.

We don’t need God

We don't need God
We don't need God send us plagues
We don't need God
We don't believe anyway

In our backyards
Every summer we'll create
Every year 'round
Our own selfpunishment

So far from here
We see only on TV
Earthquakes to fear
Hurricanes and tsunamis

How can it be?
Why should we die?

We will be providing pain
Where nature bears only goods
Rock, greed and shame
Will grant us the best damn floods

We'll be soon mining for bodies
Through this valley pasture greens
When it comes to body count
We can be second to none

And should this death toll
Even though appear too small
If by any means it still look natural
Let's have some neglected matters
Turned to accidental fires
Where we can send people to die
Without sin or conviction
To a gas chamber in disguise
We don't need God
We don't need God send us plagues
We don't need God
We don't believe anyway

In our backyards
Every summer we'll create
Every year 'round
Our own selfpunishment

So far from here
We see only on TV
Earthquakes to fear
Hurricanes and tsunamis

How can it be?
Why should we die?

We will be providing pain
Where nature bears only goods
Rock, greed and shame
Will grant us the best damn floods

We'll be soon mining for bodies
Through this valley pasture greens
When it comes to body count
We can be second to none

And should this death toll
Even though appear too small
If by any means it still look natural
Let's have some neglected matters
Turned to accidental fires
Where we can send people to die
Without sin or conviction
To a gas chamber in disguise

O impacto de argumentos falaciosos

Infelizmente, há muito conteúdo nitidamente falacioso, alguns notadamente de má-fé, em todos os canais de produção e distribuição de informação. (Esta afirmação não é conclusão de nenhum argumento, nem a medição objetiva e comprovada dos fatos, apenas minha percepção, preocupação e motivação para continuar escrevendo)

O impacto de uma informação falsa, tendenciosa, imprecisa, é difícil ser medido, mais difícil ainda ser reparado em toda a extensão de suas consequências.

Creio que estamos presenciando um efeito de espiral viciosa em que a proliferação de conteúdo falacioso provoca um aumento polarização indevida de temas e é retroalimentada por este aumento do radicalismo e da intolerância, com consequências de proporções desastrosas para o ambiente político e para a harmonia da sociedade brasileira.

Tudo isso porque, embora esteja mais fácil produzir, disseminar, pesquisar, verificar conteúdo, dentro do ambiente digital, a maioria da população optou por apenas disseminar, compartilhar aquilo que lhe parece verdadeiro, acreditando com isso estar a exercer seu direito de expressar o que pensa.

A mídia digital favorece a participação ativa da população, mais do que a mídia tradicional, mas a qualidade desta participação tem deixado a desejar.

Poucos produzem conteúdo original. E entre estes, estão os que produzem conteúdo tendencioso, falso, manipulador, pois já notaram o poder de infiltração e a vulnerabilidade dos usuários.

Normalmente, o conteúdo nos é empurrado de alguma forma, ainda que pareça que foi escolhido por nós. Seja abusando das ferramentas de disseminação de conteúdo, seja pela atuação de algoritmos que direcionam esta escolha, afunilando nossas opções ao invés de escancará-las.

Poucos questionam o conteúdo que se lhes apresenta. Poucos vão atrás de outras fontes.

Muitos, no afã de manifestar opinião sobre toda variedade de assuntos não se tem feito acompanhar de igual afã de aprofundar-se no seu conhecimento, e o que vemos são milhões de pessoas a concordar e repassar conteúdos, sem análise crítica alguma.

Se, em condições normais um argumento falacioso não resistiria ao confronto com a veracidade dos fatos ou a validade das ideias que o infirmam, atualmente, o fato de não termos um ambiente digital propício ao debate de ideias, faz com que seu impacto multiplique-se na velocidade com que é compartilhado.

Por outro lado, embora todos devam se responsabilizar pelas consequências das ideias em que baseiam suas ações e da forma que as disseminam, de modo a reparar eventuais danos causados a outras pessoas, a velocidade de disseminação dos conteúdos não se faz acompanhar da mesma velocidade e efetividade em repararem-se-lhe os efeitos negativos.

Desta forma, numa espiral viciosa, vê-se substituir o debate aberto, democrático, republicano por retaliações de igual tom e calibre, nivelando por baixo a qualidade da informação, num diálogo de surdos-mudos.

EVITEM DISSEMINAR O LOROTAVÍRUS

COMBATAM A PANDEMÍDIA

O ambiente dos meios de comunicação digital

O século passado viu surgir o conceito de comunicação de massa. Acompanhando o ritmo acelerado da evolução tecnológica, a comunicação na sociedade humana mudou drasticamente.

Além dos novos meios, como o rádio, a televisão, o cinema e a música gravada em suportes físicos, outros meios tradicionais, como jornais, livros e revistas, passaram a ter produção em larga escala e distribuição em escala global.

A comunicação de massa caracteriza-se pela assimetria entre o emissor e o receptor da mensagem. O canal da comunicação não está disponível na mesma medida e condições para ambos. Não se estabelece um diálogo, propriamente dito. Os grandes conglomerados são vistos como representantes ou propriedade mesmo de classes dominantes, que produzem e disseminam informações e conteúdos alinhados a seus interesses.

Mais para o fim do século XX estava-se pavimentado o caminho para que a comunicação pudesse se beneficiar dos avanços da informática em todos seus aspectos e todos seus efeitos: variedade de formatos; ferramentas mais simples; plataformas de distribuição cada vez mais acessíveis.

Contudo, este novo ambiente em transformação, em que se dá a comunicação digital, em que pese poder democratizar a produção de conteúdos, tampouco restabeleceu alguma simetria, reciprocidade ou condição para diálogo efetivo e produtivo.

Devem ser rediscutidas com profundidade e responsabilidade, por todos os setores da sociedade, as muitas questões relacionadas ao fenômeno da comunicação, aplicadas a esse novo ambiente, tais quais:

  • princípios da liberdade de pensamento e liberdade de expressão
  • qualidade do conteúdo
  • responsabilidade pelo conteúdo veiculado
  • marco legal regulatório
  • segurança da informação

Por enquanto, o que vemos é um ambiente propício à proliferação de conteúdo de procedência duvidosa, uma profusão de fontes, inclusive assim entendidas as fontes secundárias, que não produzem, mas reproduzem, repassam conteúdo sem maiores preocupações.

As dimensões do argumento falacioso

Ao argumentarmos, sobre qualquer assunto, o que fazemos é buscar explicar com base em que encadeamento de fatos e/ou ideias chegamos a uma determinada conclusão.

Podemos argumentar a partir somente de ideias, a partir somente de fatos ou a partir de fatos e ideias, mas a conclusão será sempre uma ideia, nunca um fato.

Aos fatos e ideias trazidos para fundamentar uma argumentação chamamos premissas.

A conclusão de um argumento pode ser usada como premissa em uma argumentação subsequente.

Para que um argumento seja válido, ou seja, para que sua conclusão seja verdadeira, é necessário que todos os fatos e ideias em seu interior sejam verdadeiros.

Se alguma ideia utilizada como premissa na argumentação for a conclusão de uma argumentação anterior, terá seu valor de verdade condicionado à validade desta.

Mas, apesar de necessário, não é suficiente que os fatos e ideias usados como premissas sejam verdadeiros para que a conclusão do argumento seja verdadeira.

É necessário também que o encadeamento, as relações entre essas premissas respeitem os critérios da lógica formal, traduzidos no uso da linguagem verbal de forma clara e inequívoca.

Falácias são aqueles argumentos cuja conclusão não se sustenta logicamente em suas premissas.

Não é necessário supor que por trás da falácia exista uma intenção de falsear a verdade. A deficiência pode dever-se ao desconhecimento do real valor de verdade dos fatos e ideias empregados na argumentação, ou em erro nta sua lógica interna, sem que haja má-fé.

A ma-fé evidencia-se quando, ao ser confrontado com possível falha de sua argumentação, o autor:

  • nega-se de pronto a reavaliá-la
  • apressa-se a apresentar novos argumentos, ao invés de defender o argumento atacado
  • utiliza-se, nestes novos argumentos, de fatos de difícil comprovação
  • abandona os fatos ou passa a privilegiar o uso de ideias nas suas premissas sem, no entanto, demonstrar sua validade
  • apela para argumentos cada vez mais claramente falaciosos: apelo a força, a piedade, a consequências, a preconceitos, a emoção; fuga de assunto e ataques pessoais.

LEIAM O GUIA DAS FALÁCIAS

Dualidades

Não me parece exagero a afirmação de que enxergamos, entendemos e explicamos o universo recorrendo a dualidades. Vida e morte, espírito e matéria, luz e treva, bem e mal…

Talvez a dualidade esteja implícita, enquanto princípio, na própria natureza do universo. Talvez seja uma imposição à nossa capacidade dedutiva, uma limitação ditada pelo senso comum à razão.

Fato é que, seja imaginando um universo constante regido por princípios opostos e complementares, seja imaginado um momento em que a unidade primordial começa a se desdobrar para originar toda a variedade observada a seu redor, o homem coloca o número dois como estágio necessário para atingir a multiplicidade.

Em que respalde-se esta noção na observação de inúmeros processos básicos, como a reprodução dos seres unicelulares e das células dos seres pluricelulares; as forças de atração e repulsão magnéticas e as cargas elétricas; ainda que seja a opção mais simples para orientação espacial e a simetria mais facilmente reconhecível, não faltam exemplos contrários.

Na química, mais especificamente na geometria molecular, percebem-se padrões variados: linear, angular, trigonal plana, piramidal e tetraédrica. Na biologia, simetrias radiais, além da bilateral. Na geometria e na natureza, estruturas fractais. Na matemática, um infinito de frações no intervalo fechado entre os números 1 e 2…

Em que pese o poder de explicação, seja pela simplicidade conceitual, seja pela recorrência nos processos e fenômenos da natureza, devemos ter duas (não pude escapar) preocupações em mente.

A primeira é que muitas das categorias que se nos apresentam dualisticamente, na verdade, como na matemática, comportam uma infinidade de nuances.

A segunda é que haverá sempre uma necessidade de superar essas dicotomias para chegar ao real entendimento dos fenômenos em que se aplicam.

Entender vida e morte como parte de um mesmo ciclo, estabelecer a unicidade da matéria e da energia, reconciliar corpo e alma, entender a real distinção entre bem e mal…

Caixa de cassetes

ENTRADA DE UM SUPERMERCADO- DIA

Homem de meia-idade, meio século, para ser mais preciso, usando óculos de proteção e abafadores de ruído profissionais – que manterão o filme mudo neste início. Máscara anticovid-19 cobrindo a parte inferior do rosto; entra no supermercado.

Outras pessoas estão todas usando máscaras comuns; ninguém usa, no entanto, óculos ou proteção para os ouvidos, apenas alguns jovens, pelo contrário, usam fones de ouvido.

O homem caminha, um pouco distraído, mas direto para a parte de trás, dos frigoríficos, onde pega alguns pacotes de bacon e depois em direção a banca onde estão as caixas de ovos, sem olhar para mais nada no caminho. Volta ainda para pegar mais bacon e depois se dirige ao caixa, onde uma mulher está pagando a conta.

Ele fica olhando para ela o tempo todo enquanto ela mexe na bolsa procurando trocados. Ela levanta a cabeça e olha para ele com um sorriso que, velado pela máscara, assoma aos olhos, como se preparando para pedir desculpas por demorar tanto tempo.

Ao invés disso, cai na gargalhada ao deparar-se com a figura estranha, mesmo para tempos de pandemia.

Bem, você está seguro, hein?- comenta simpática, como se pedisse desculpas pela gargalhada.
Ele se apressa a tirar a proteção dos olhos e ouvidos, mas ela já está saindo, pois alguém buzina no meio-fio.


(Sons de supermercado aumentam até atingir o nível normal)
Nesse momento, com a tralha nas mãos, a máscara ainda no rosto, ele se vira, pega um carrinho de compras onde deposita o equipamento e começa a fazer compras.


INTERIOR DE UM APARTAMENTO

Corta para ele, mãos ocupadas com muitos pacotes, entrando em casa. Há uma mulher lá dentro, mais jovem e bonita, manuseando alguns discos.

Música animada dos anos 70 tocando alto.

Ela se apressa para ajudá-lo com as compras: Uau? O que deu em você, quer dizer, isso é ótimo!

Ele olha por cima do ombro dela para a parede coberta com seu aparelho de som de ponta, percebe que está ligado.

Ela vira a cabeça nessa direção: Desculpe, encontrei-os espalhados … (a câmera percorre uma pilha desfeita de uns trinta elepês no chão, sobe, encontra e percorre a parede inteira cheia de discos)

Não há com que se preocupar, é que você nunca mostrou interesse. – no entanto, começa a recolhê-los e colocar na estante.

Deixa que eu arrumo, quero dizer, vou colocá-los de volta no lugar certo depois, posso fazer isso.

Você tem certeza? Eu deixei os anteriores saltados, para facilitar, mas não é um problema, eu realmente aprecio você mostrando interesse pelas minhas coisas antigas.

Prefiro o Spotify… Mas já que estamos trancados aqui dentro o dia todo … pode ser divertido.

Sons de cliques informam que era a última música daquele lado. Enquanto ele vira o disco, ela pergunta, subitamente:

Quem é Fernanda?

Quem?

Chiados antes que a música comece novamente, suave e romântica agora, anos 80.

Fernanda, quem é ela? “Love you whenever we’re together, love you when we’re apart ”.

É uma música dos Beatles …

Então, ela era um deles, o quinto Beatle?

Eu odeio pessoas que escrevem nas capas.

Quer dizer que você a odeia? Tem certeza disso?

Não, eu não… Não é isso. É passado, o que te importa? Tem…

“My heart will lie beside you, and my wandering body grieves”?

Neil…

“Nothing compares 2u” ah, aqui está, quem? Fernanda! Fernanda! – para e o encara, volta aos discos espalhados, demorando-se em silêncio em cada capa.  Antes de chegar a metade, sai e bate a porta.

Ele agora está procurando em uma caixa de fitas cassete, que fazem aquele ruído seco de plástico duro.
Encontra a fita K-7 que estava procurando, com uma foto cortada para servir de capa, que ele tira e olha de perto, por cima dos óculos: ele, mais jovem, ao lado de uma mulher, dividindo um cachecol que lhes cobre a parte inferior dos rostos.

FIM.

Final alternativo:
Depois de rolar a fita na mão por um tempo, ele tira a fita da caixa e a insere no toca-fitas duplo.
Porém, ao invés de pressionar o botão de reprodução, ele pressiona o botão de ejeção, revira a caixa das fitas para encontrar um toca-fitas e gravador portátil, coloca a fita, pressiona a reprodução, senta-se, relaxa e aguarda os sons do passado voltarem à vida. Para seu desespero, porém, o único som que sai é o barulho estridente da fita sendo mastigada.

Falar é fácil, difícil é fazer-se entender – Parte II

Ao decidir escrever o blog pensa aqui comigo confesso ter sido movido por várias pretensões, as quais tenho declarado abertamente, de modo tanto a atrair a atenção do leitor que se identificar com os temas e abordagens propostos, quanto para afastá-los tão logo creiam que não estou dando conta do recado.

Dito onde pretendo chegar, noto a necessidade de indicar de onde estou partindo. Pretendo elaborar uma lista com fontes onde se encontrem ideias que achei interessante e incorporei livremente a meus argumentos. Quando a referência for mais específica, a destacarei no próprio post.

Não tenho pretensões científicas ou acadêmicas, mas julgo-me suficientemente “treinado” para fugir do senso comum, da mera opinião, e da especulação infundada, que abundam todas as formas de produção, distribuição e consumo de “informação”.

Tratarei deste assunto com mais tempo, por ora cabe enfatizar que vem daí minha maior motivação: oferecer algo diferente, em termos de ideias, de abordagem e de atitude.

Meu modo de pensar envolve basicamente:

  • atitude filosófica: dlstanciamento contemplativo, dúvida sistemática, especulação estruturada
  • respeito ao método e rigor científico: só chegamos neste estágio de conhecimento graças a ele
  • preocupação lógico-formal: principio que informa os anteriores, mas nunca é demais pontuar

Destaco algumas aplicações destes princípios:

  • valorização às ideias mais que aos fatos, em que pese a importância destes para chegar-se àquelas*
  • entendimento das dicotomias (matéria x energia, bem x mal…) como categorias da percepção ou explicação da realidade, e não como sua real natureza
  • preocupação sistemática e metodológica na definição dos problemas: erros conceituais levam a discussões estéreis
  • presunção de legitimidade e boa-fé, independentemente da posição defendida em temas polêmicos: entendida como a coerência entre os meios utilizados para defender uma posição e os aceitos ou colocados à disposição da tese contrária
  • elogio à simplicidade; horror à simplificação: a simplicidade se impõe ao entendimento com naturalidade, buscá-la voluntariamente, forçá-la a expor-se denota nada mais que incapacidade de entender o tema em sua complexidade.
  • renúncia ao uso de suposições em argumentos, exceto se em exercício em que se procure exaurir e comparar as várias possibilidades
  • presunção de multiplicidade de causas: mesmo os fenômenos menos complexos guardam mistérios e surpresas, pois a observação de suas causas jamais é plena

Nestes termos espero fazer-me entender…


  • valorização às ideias mais que aos fatos, em que pese a importância destes para chegar-se àquelas – reconheça-se aqui a dualidade entre empirismo e apriorismo, que perpassa toda discussão sobre as bases do conhecimento humano. Refugiar-me nas ideias, não significa aqui nada além do reconhecimento de que não poderei, no mais das vezes, recorrer a fatos cuja comprovação esteja a meu alcance.

FALAR É FÁCIL, DIFÍCIL É FAZER-SE ENTENDER – PARTE I

Ao escolher o nome do blog, pensa aqui comigo era a minha primeira e única opção. Não estivesse o domínio na Internet disponível, provavelmente não teria procurado outra.

Pensa aqui comigo não é tanto um convite ao debate, embora em algum momento isso possa vir a se tornar inevitável.

Trata-se mais de um esforço de organizar o pensamento de forma que possa ser transmitido sem perda significativa para o entendimento.

Não que seja extremamente complexo, inescrutável, pelo contrário, prezo e prego por sua simplicidade, mas fato é que a comunicação tem suas limitações e armadilhas, imprecisões e ambiguidades.

Sem os devidos cuidados, entre os quais rigor conceitual e formal, precisão gramatical, concisão de texto e clareza de contexto, somos facilmente levados a interpretações subjetivas, a juízos impróprios, a conclusões extravagantes.

Mantida esta preocupação com a objetividade da escrita, resta cuidar do caráter subjetivo, que só pode ser minimizado se o autor explicitar os aspectos peculiares ao seu modo de pensar.

Apesar de indicado na seção Sobre o blog, achei que não seria demais reforçar alguns pontos acima e, mais importante, esclarecer algumas premissas de que me valerei recorrentemente e que, talvez, fujam um pouco do senso comum.

É o que farei em FALAR É FÁCIL, DIFÍCIL É FAZER-SE ENTENDER – PARTE II…


Continua

Pensar é fácil, difícil é fazer-se entender!