Eu sonho com ovelhas elétricas

Tempo corrigido, paixões acomodadas
O outono passado nunca teve fim
Os rangidos e as cores da sirene se fundem
A cena do crime perfeito foi inventada

Antes nos conhecíamos, agora apenas combinamos
Há séculos não eclode um ovo

A música não preenche mais pautas
A música não enche mais capas
Ninguém parece dar a mínima
A que merda lhe entra pelos ouvidos

Ruas sombrias, batidas ensurdecedoras e encardidas*
Façanhas obstinadas da vida cotidiana
A chuva não desaba, mas também não cessa
Cada gota é uma faísca que cai

Nada dura o suficiente para mudar
O passado estará fora de alcance em breve

  • beat – batida de música eletrônica
  • grime – sujeira impregnada à superficie, mas também um gênero de música eletrônica

i dream of electric sheep

Time amended, passions bended
Last Autumn never ended
Siren's squeaks and colors blend
The perfect crime scene was invented

Once we meet, now we just match
Eggs for centuries haven't hatched

Music no longer fill sheets
Music no longer fill sheaths
No one seems to give a shit
What shit comes up to their ears

Gloomy streets, grime deafening beats
Everyday life's gritty feats
Rain won't pour, but won't stop either
Every drop is falling glitter

Nothing lasts enough to change
Past will soon be out of range

Breaking news


You can’t figure what I wish
Pay no heed to what I think
Hardly hear me when I speak
Make no sense from what you hear


“Nothing happens through your days?
Anything you’d care to mention?
In this whole world going crazy
Something must draw your attention”


There are many things indeed
But I’m lost in my distractions
What I lack, what I’m in need
Is a pause for my reflections


All I expect and ask of you
Please, believe in dreams come true
I would offer you my view
Just before the break of news

Reflexão inicial

27/03/2020 16:51 – Luis Emilio: Corrigido:

É tempo de refletir e a minha primeira reflexão é: qual é o tempo que não seja de refletir?

Como Nação, não temos o direito de agir irrefletidamente, mas é o que temos feito. E isso nos têm trazido repetidas vezes a situações em que nos vemos frente a escolhas difíceis.

Devemos ter em mente que as opções não surgem do nada; cada escolha determina nossas opções futuras e cada opção que temos no presente é determinada por nossas escolhas passadas.

Cada vez que nos deparamos com escolhas difíceis, em que as opções são igualmente dolorosas, podemos admitir que isso se deve a decisões erradas anteriores ou podemos nos considerar vítimas das circunstâncias, de fatores externos, imprevisíveis.

A segunda opção vem junto com a atitude de continuar agindo irrefletidamente.

A primeira comporta a armadilha de, ao invés de analisar profunda e imparcialmente o encadeamento dos fatos pretéritos, tão somente buscar culpados no passado imediato.

O fato é que somos um país extremamente vulnerável. Qualquer espirro do outro lado do mundo põe em cheque a capacidade do nosso sistema de saúde; qualquer gripinha ou resfriadinho revela nossa falta de educação, solidariedade humana, espírito coletivo e coesão social; qualquer marolinha no preço internacional das commodities demonstra a fraqueza de nossa economia.

Chegamos a este momento em que temos que escolher entre reduzir a atividade econômica ou colocar em risco a vida de parte da população, principalmente daqueles que hoje já não fazem parte da população economicamente ativa.

Para os que defendem a segunda opção, a escolha é mais fácil: de um lado, preservar a atividade econômica; do outro, preservar a vida da parte da população que não colabora tanto mais para essa atividade econômica. A conta é ainda mais fácil. Trata-se de medir o PIB. As vidas perdidas também entram na conta, mas com sinal positivo, aliviando os gastos com uma parcela da população que já não produz tanto.

Entretanto, ainda que provem na ponta do lápis que a melhor opção para viabilizar o país economicamente, para reduzir a crise e acelerar a retomada após ela, afirmo que a decisão ética, neste caso, não pode ser pautada numa visão de futuro, e sim num ajuste de contas com o passado.

Não podemos mudar o passado, mas não devemos nos esquivar de pagar pelos erros que cometemos. E o preço não pode ser pago com vidas humanas, ainda que sejam vidas já quase totalmente vividas. Há de ser pago com o sacrifício futuro dos que sobrevivermos e a força moral que precisaremos para tanto, e que está a se forjar hoje, estará seriamente comprometida se tivermos que carregar a culpa de aceitar o risco de abreviar um dia que seja da vida de nossos pais e avós.

………

Publico aqui este que foi um dos primeiros textos que escrevi para expor minha preocupação com o rumo que a crise da pandemia causada pelo coronavírus apontava.
De certa forma, estou preso nesta reflexão desde então e procurarei organizar ideias, buscando refúgio na lógica e no bom senso (que infelizmente, é constantemente superado pelo senso comum).
É a única forma que enxergo de fazer frente à descrença, à impotência, à desconfiança, às incertezas e às animosidades que campeiam apocalipticamente entre a pandemia e a pandemídia.